Como escolher o ERP da distribuidora farmacêutica: checklist de 15 critérios
Checklist com 15 critérios para escolher o sistema de gestão (ERP) da distribuidora de medicamentos: lote, recall, nota fiscal, licitação e mais.
Por Equipe Kralen · Publicado em · Atualizado em
Trocar o sistema de gestão de uma distribuidora de medicamentos não é como trocar de impressora. O sistema guarda produtos, lotes, notas e anos de histórico de clientes. Uma escolha errada aparece no dia a dia: nota rejeitada, lote que ninguém acha, caixa errada no pedido.
ERP é a sigla em inglês para "planejamento dos recursos da empresa". Na prática, é o sistema que junta compras, estoque, vendas, notas e financeiro num lugar só. Se você quer entender melhor o conceito antes de seguir, veja o que é ERP e por que a distribuidora precisa de um.
Neste guia, você vai ver 15 critérios divididos em quatro grupos: sanitário, fiscal, operação e vendas. Para cada um, há uma pergunta para o fornecedor e, quando ajuda, um teste para a demonstração. No fim, há uma tabela de notas, um roteiro de decisão e os erros mais comuns.
Por que a distribuidora de medicamentos precisa de critérios próprios
Uma distribuidora de medicamentos segue regras que um atacado de outros produtos não segue. A principal é a RDC 430/2020 da ANVISA, a norma de Boas Práticas de Distribuição, Armazenagem e Transporte de Medicamentos. Ela está em vigor desde 16 de março de 2021 e revogou a antiga RDC 304/2019.
Essa norma pede coisas que dependem do sistema: lote nas notas de saída, o "mapa de distribuição" (quem recebeu cada lote) pronto para consulta, registros protegidos contra alteração e sistemas qualificados e validados. Somam-se a isso regras fiscais próprias de medicamentos e a venda para governo por licitação.
Um sistema que não foi pensado para isso obriga a equipe a completar o trabalho em planilha. É aí que nascem os erros. Para entender melhor essa diferença, leia ERP feito para o setor ou ERP genérico: 7 diferenças.
Grupo 1: sanitário (4 critérios)
1. Lote e validade obrigatórios em toda movimentação
O sistema deve pedir lote e validade na entrada da mercadoria, guardar essa informação no estoque e levá-la até a nota de saída. Se o campo for opcional, alguém vai deixar em branco num dia corrido.
Pergunta ao fornecedor: "O sistema deixa dar entrada num medicamento sem lote?"
Teste na demonstração: peça para dar entrada numa nota de compra pelo arquivo XML e veja se o lote e a validade vêm sozinhos do arquivo. Depois, emita uma venda e confira se o lote aparece na nota. Veja mais sobre o tema em lote e validade.
2. Recall respondido em horas, não em dias
Recall é o recolhimento de um lote do mercado por problema de qualidade. A RDC 625/2022 da ANVISA trata do recolhimento de medicamentos. Ela pede que a distribuidora suspenda na hora a venda do lote nos casos mais graves e envie ao fabricante, em até 48 horas, as informações de quem recebeu o produto, com notas e quantidades.
Pergunta ao fornecedor: "Escolho um lote qualquer. Em quanto tempo o sistema me mostra todos os clientes que receberam esse lote, com nota e quantidade?"
Teste na demonstração: escolha você mesmo o lote, na hora. Não aceite um exemplo preparado antes. Entenda melhor o processo em recall e no artigo sobre recolhimento de classe I em 24 horas.
3. Registros protegidos e histórico de alterações
A RDC 430/2020 pede que registros eletrônicos não sejam alterados sem autorização. Quando alguém corrige um dado, o valor original precisa ficar guardado, junto com o motivo. Os registros devem ser guardados por no mínimo 5 anos.
Pergunta ao fornecedor: "Se alguém mudar a validade de um lote, consigo ver quem mudou, quando e qual era o valor anterior?"
Teste na demonstração: peça para alterar um cadastro e depois mostrar o histórico daquela alteração. Pergunte também como funcionam as permissões por usuário e a verificação em duas etapas no acesso.
4. Apoio às rotinas de medicamentos controlados
Se a sua distribuidora trabalha com medicamentos da Portaria 344/1998, você precisa da Autorização Especial (AE) e de controles próprios para esses produtos. Vale um esclarecimento: o SNGPC, sistema de escrituração eletrônica da ANVISA regulado pela RDC 22/2014, se aplica a farmácias e drogarias. Para a distribuidora, as exigências de livros e balanços vêm da Portaria 344 e de normas estaduais.
Pergunta ao fornecedor: "Como o sistema me ajuda a separar os controlados, saber o saldo por lote e montar os relatórios que a vigilância do meu estado pede?"
Teste na demonstração: peça um relatório de entradas e saídas de um controlado, por lote, num período. Confirme com seu farmacêutico responsável técnico se o formato atende ao que a vigilância local exige.
Grupo 2: fiscal (4 critérios)
5. Tributação definida no cadastro, e não na hora da venda
O vendedor não deve escolher imposto. O correto é que a tributação fique no cadastro do produto e do cliente, e o sistema monte a nota sozinho. Isso inclui NCM (código que classifica a mercadoria), CEST (código usado na substituição tributária), CFOP (código que diz o tipo de operação) e a situação tributária.
Pergunta ao fornecedor: "Quem decide o CFOP numa venda para outro estado: o vendedor ou o sistema?"
Teste na demonstração: faça um pedido para um cliente de outro estado, com um produto que tem ICMS-ST, e veja a nota sair sem ninguém digitar imposto.
6. Regras de medicamentos já previstas
Dois exemplos comuns. Primeiro, o PIS e a COFINS de medicamentos são cobrados do fabricante ou importador, e a revenda tem alíquota zero, conforme a Lei 10.147/2000 (a regra não vale para empresas do Simples Nacional). Veja PIS/COFINS monofásico. Segundo, a substituição tributária do ICMS muda de estado para estado.
Pergunta ao fornecedor: "Como o sistema trata a lista positiva, negativa e neutra de medicamentos no PIS/COFINS?"
Teste na demonstração: peça para ver o cadastro de um medicamento e de um material hospitalar lado a lado e compare como os impostos são calculados. Para a parte interestadual, leia substituição tributária interestadual de medicamentos.
7. Nota fiscal completa, com todas as situações do dia a dia
Não basta emitir NF-e de venda. Pense no que acontece na sua rotina: carta de correção, cancelamento, devolução de cliente, nota em contingência quando a internet da SEFAZ cai, e o MDF-e (manifesto do transporte). Para medicamentos, a NF-e tem um grupo próprio de rastreabilidade com lote e validade. Se ele faltar, a SEFAZ rejeita a nota com a rejeição 873.
Pergunta ao fornecedor: "Quando a SEFAZ rejeita uma nota, o sistema me explica o motivo em linguagem simples?"
Teste na demonstração: peça para emitir uma devolução de venda e uma carta de correção na frente de você.
8. Arquivos do SPED sem retrabalho
O SPED é o conjunto de arquivos digitais que a empresa entrega ao fisco. A EFD-ICMS/IPI é um deles e inclui o inventário do estoque. Se o seu contador refaz esses arquivos todo mês, o sistema não está entregando o que deveria.
Pergunta ao fornecedor: "O arquivo do SPED sai direto dos lançamentos do sistema? Meu contador consegue importar sem ajuste?"
Veja também o cruzamento entre SPED e NF-e.
Grupo 3: operação (4 critérios)
9. Estoque por lote e por localização
Saber que existem 300 caixas de um produto não basta. Você precisa saber quantas são de cada lote e em qual prateleira estão. Sem isso, a separação vira caça ao tesouro e a validade fica fora de controle.
Pergunta ao fornecedor: "O sistema mostra o saldo por lote e por endereço do armazém?"
10. Separação e conferência com leitura de código de barras
Separar "no olho" gera erro: produto parecido, apresentação errada, quantidade trocada. Com leitura do código de barras, o sistema avisa na hora que o item não confere.
Pergunta ao fornecedor: "O separador usa o próprio celular para ler o código de barras? Precisa comprar coletor?"
Teste na demonstração: peça para separar e conferir um pedido com leitura pela câmera. Veja como o sistema escolhe o lote a separar e se respeita a validade mais próxima. Mais detalhes em FEFO na prática.
11. Sugestão de compra baseada em dados
Um bom sistema mostra ao comprador o histórico de vendas, o estoque, o que já está comprado e o tempo de entrega do fornecedor. O comprador confere e aprova.
Pergunta ao fornecedor: "Como o sistema calcula a necessidade de compra? Consigo ver o motivo da sugestão?"
Teste na demonstração: peça a sugestão de compra de um fornecedor e depois a cotação com vários fornecedores. Leia mais em sugestão automática de reposição.
12. Inventário sem parar a operação
Contar tudo uma vez por ano, com a empresa fechada, custa caro e acha os erros tarde. O ideal é contar por partes, com o celular, sem parar as vendas.
Pergunta ao fornecedor: "Consigo contar só uma rua do armazém hoje e outra amanhã, com o aplicativo?"
Grupo 4: vendas (3 critérios)
13. Licitações do edital ao empenho
Se você vende para governo, o sistema precisa acompanhar o caminho todo: edital, proposta, resultado, ata de registro de preços, empenho e entrega. A Lei 14.133/2021 divide os documentos de habilitação em jurídica, técnica, fiscal, social, trabalhista e econômico-financeira. Uma certidão vencida no dia do pregão pode tirar você da disputa.
Pergunta ao fornecedor: "O sistema avisa antes de uma certidão vencer? Mostra o saldo de cada ata?"
Teste na demonstração: peça para ver uma ata com o saldo consumido pelos empenhos. Veja também documentos de habilitação.
14. Captação de editais
Os editais públicos são divulgados no PNCP, o Portal Nacional de Contratações Públicas criado pela Lei 14.133/2021, e em outros portais de compras. Achar o edital cedo dá tempo de cotar com o fornecedor e montar a proposta com calma.
Pergunta ao fornecedor: "Como o sistema me ajuda a encontrar editais do meu ramo e a organizar a agenda de pregões?"
15. Atendimento e pedidos por vários canais
Hoje o cliente manda pedido por WhatsApp, e-mail, telefone e, às vezes, por foto de uma lista. O sistema deve ajudar a transformar isso em pedido sem redigitar tudo. Se você vende também para clínicas e farmácias, um portal B2B (loja na internet só para empresas) ajuda.
Pergunta ao fornecedor: "O WhatsApp usa a API oficial da Meta? A conversa fica ligada ao cadastro do cliente?"
Teste na demonstração: mande uma mensagem com uma lista de produtos e veja quanto trabalho dá para virar um pedido.
Tabela de avaliação rápida
Dê uma nota de 0 a 2 para cada critério: 0 = não tem, 1 = tem o básico, 2 = atende bem no teste. O total máximo é 30 pontos.
| Grupo | Critérios | Pontos possíveis |
|---|---|---|
| Sanitário | Lote e validade, recall, registros protegidos, controlados | 8 |
| Fiscal | Tributação no cadastro, regras de medicamentos, nota completa, SPED | 8 |
| Operação | Estoque por lote, separação com leitura, sugestão de compra, inventário | 8 |
| Vendas | Licitações, captação de editais, atendimento por vários canais | 6 |
Antes de somar, defina quais critérios são eliminatórios. Para quem vive de licitação, o 13 pesa mais; para quem tem lotes perto de vencer, o 1, o 9 e o 10. Nota alta no total não compensa zero num critério eliminatório.
Passo a passo para decidir
- Junte a equipe. Compras, faturamento, armazém, financeiro e o farmacêutico responsável técnico.
- Liste os problemas de hoje. Notas rejeitadas, erros de separação e planilhas paralelas.
- Escolha os critérios eliminatórios. Use a tabela acima e marque os três ou quatro que não podem faltar.
- Selecione de três a cinco fornecedores. Mais do que isso cansa a equipe e atrasa a decisão.
- Peça demonstrações com os seus casos. Leve um XML de compra real, um pedido real e um lote real. Roteiro pronto do fornecedor mostra só o que funciona bem.
- Converse com clientes atuais. Peça contato de distribuidoras parecidas com a sua, de preferência não só as indicadas pelo fornecedor.
- Entenda a implantação. Pergunte como os dados antigos serão trazidos, quem treina a equipe e como é o suporte depois. Veja o que esperar em cada etapa da implantação.
- Leia o contrato com calma. Confira o nível de atendimento do suporte, a cópia de segurança dos dados e como você recebe seus dados se um dia sair.
Erros comuns na escolha
- Decidir pela tela bonita. A demonstração mostra poucos dados. Pergunte como o sistema se comporta com o volume real da sua empresa.
- Deixar a equipe de fora. Se o faturista e o separador não participaram da escolha, a resistência aparece na implantação.
- Pedir personalização demais. Cada "ajuste só para nós" pode atrasar as atualizações depois. Prefira o que já vem pronto no sistema.
- Esquecer os dados antigos. Cadastros de produtos, clientes, lotes em estoque e contas em aberto precisam ser trazidos com cuidado e conferidos.
- Não planejar a validação. Combine essa etapa com o responsável técnico desde o início (veja a pergunta frequente sobre isso abaixo).
- Ignorar onde o sistema roda. Servidor próprio exige máquina, cópia de segurança e manutenção. Compare em ERP online ou instalado.
Perguntas frequentes
Posso continuar com o sistema que uso há muitos anos?
Pode, se ele atende aos critérios que você marcou como eliminatórios. Faça o teste: aplique a tabela no seu sistema atual. Se ele tirar zero em lote, recall ou nota fiscal, a troca merece ser estudada.
Quanto tempo leva para implantar um sistema novo?
Depende do tamanho da operação, da qualidade dos dados antigos e da disponibilidade da equipe. Desconfie de prazos prometidos sem conhecer sua empresa. Peça ao fornecedor um plano com as etapas e com quem faz o quê.
Qual a diferença entre um sistema feito para o setor e um sistema "com módulo farma"?
O sistema feito para o setor já nasce com lote, validade e regras fiscais de medicamentos no centro. O sistema genérico com módulo coloca essas regras como um acessório. Veja as 7 diferenças entre os dois.
Uma distribuidora pequena precisa desse cuidado todo?
Sim. As regras sanitárias e fiscais são as mesmas para empresas pequenas e grandes. E a empresa pequena costuma ter menos gente para conferir tudo à mão.
O sistema precisa ser validado?
A RDC 430/2020 pede que sistemas informatizados usados nas Boas Práticas sejam qualificados e validados antes do uso e depois de mudanças importantes. A responsabilidade é da distribuidora; o fornecedor pode ajudar com documentação. O Guia 33/2020 da ANVISA traz orientações.
Onde o KWeb entra
O KWeb é o sistema de gestão da Kralen na internet, feito hoje para distribuidoras de medicamentos e material médico-hospitalar. Ele abre no navegador e no celular, sem instalar, e cobre vários critérios deste checklist: cadastro com lote, validade e tributação; estoque por lote e localização; separação e conferência com leitura pela câmera do celular; notas fiscais com transmissão direta à SEFAZ, devolução, carta de correção e contingência; e licitações com captação de editais, saldo de atas, empenhos e documentos de habilitação. A empresa contrata só os módulos que usa. Se quiser aplicar a tabela na prática, peça uma demonstração com os seus casos.
Fontes
- ANVISA – Perguntas e respostas sobre a RDC 430/2020
- ANVISA – Apresentação sobre Boas Práticas de Distribuição, Armazenagem e Transporte de Medicamentos
- RDC 625/2022 – Recolhimento de medicamentos (texto publicado pela SES-SP)
- RDC 22/2014 – SNGPC (texto publicado pela Prefeitura de Macaé)
- Lei 10.147/2000 – PIS/COFINS de produtos farmacêuticos (Planalto)
- Lei 14.133/2021 – Licitações e contratos (Planalto)