Conferência pelo celular com GS1 DataMatrix: lote e validade sem digitar
Como funciona o GS1 DataMatrix, o que ele traz (GTIN, lote, validade, série) e como usar a leitura pelo celular no recebimento e na expedição.
Por Equipe Kralen · Publicado em · Atualizado em
No recebimento de uma distribuidora de medicamentos, o conferente faz sempre a mesma coisa: lê o código de barras, procura o lote na caixa, digita, procura a validade, digita. Item por item. Em uma carga grande, isso toma horas. E cada digitação é uma chance de erro: um número trocado no lote ou na validade estraga a rastreabilidade e bagunça a ordem de saída do estoque.
Existe um código que resolve boa parte disso: o GS1 DataMatrix. Aquele quadradinho preto e branco que aparece cada vez mais nas embalagens pode trazer, em uma única leitura, o código do produto, o lote, a validade e, quando houver, o número de série.
Neste artigo você vai entender o que é o DataMatrix, o que ele guarda, como ler pelo celular, como usar no recebimento e na expedição, o que fazer quando a embalagem não tem o código e qual é a situação das regras no Brasil.
Código de barras comum e DataMatrix: qual a diferença
O código de barras de linhas que todo mundo conhece (o EAN-13) traz só o GTIN, o número que identifica o produto. Ele diz "isto é a dipirona 500 mg, caixa com 10". Não diz o lote nem a validade.
O DataMatrix é um código bidimensional (2D): um quadrado formado por pontos. Ele cabe em pouco espaço e guarda muito mais informação. No padrão da GS1, a organização que define os códigos de barras usados no comércio, cada informação vem marcada por um número entre parênteses, chamado identificador de aplicação:
| Identificador | O que traz | Formato |
|---|---|---|
| (01) | GTIN, o código do produto | 14 dígitos |
| (17) | Data de validade | AAMMDD (ano, mês, dia) |
| (10) | Lote | até 20 caracteres |
| (21) | Número de série | até 20 caracteres |
Exemplo do texto que fica embaixo do código, para leitura humana:
(01)07891234567895 (17)271231 (10)AB1234
Isso quer dizer: produto 07891234567895, validade 31/12/2027, lote AB1234. Uma leitura, três informações.
Outro identificador útil é o (00), o SSCC, que identifica um volume ou palete inteiro. Ele aparece em etiquetas logísticas, não na caixinha do produto.
Por que isso importa para a distribuidora
Três ganhos práticos:
- Menos digitação. Lote e validade entram direto no sistema. Acaba o erro de dígito trocado.
- FEFO confiável. A regra do "vence primeiro, sai primeiro" depende da validade certa no sistema. Com a leitura, a validade entra como está na embalagem. Veja FEFO na prática.
- Conferência que compara lote. Na saída, a leitura mostra se o lote na mão do separador é o lote que devia sair.
Como funciona a leitura pelo celular
Para ler DataMatrix, o leitor precisa entender códigos 2D. Há três caminhos:
- Celular com câmera e aplicativo. Bons celulares leem DataMatrix com a câmera, desde que o aplicativo tenha essa função. É a forma mais barata de começar.
- Coletor de dados com leitor 2D. Aparelho próprio para armazém, mais resistente e com leitor dedicado. Lê mais rápido, inclusive com pouca luz ou etiqueta gasta.
- Leitor de mão com fio ou Bluetooth. Ligado a um computador ou celular, útil na bancada de recebimento.
O que pedir ao fornecedor do sistema e do aparelho:
- O aplicativo lê DataMatrix, e não só código de linhas?
- O sistema separa os campos (GTIN, lote, validade, série) automaticamente?
- Ele entende a validade no formato AAMMDD?
- O que acontece quando o código vem sem lote ou sem validade?
- Como o aplicativo se comporta se o Wi-Fi do armazém cair?
Faça um teste com caixas reais dos seus fornecedores antes de comprar aparelhos para toda a equipe.
Passo a passo no recebimento
O caminhão chegou. Com a nota do fornecedor já lançada no sistema (de preferência pelo XML), o conferente:
- Abre a entrada daquela nota no celular ou coletor.
- Lê o DataMatrix de cada embalagem.
- O sistema identifica o produto pelo GTIN e preenche lote e validade.
- O sistema compara com a nota: o produto está na nota? O lote é o mesmo? A quantidade fecha?
- Se tudo bater, o item é confirmado. Se não bater, o sistema avisa.
- Itens com divergência ou avaria vão para a área de quarentena.
- Ao final, o sistema mostra o que faltou e o que sobrou em relação à nota.
A RDC 430/2020, norma da ANVISA de boas práticas de distribuição, pede no art. 56 que o recebimento confira e registre lote, validade e quantidade, comparando com o pedido e a nota. A leitura do DataMatrix torna isso mais rápido e mais seguro.
Passo a passo na separação e na expedição
Na separação, o caminho é o inverso:
- O separador abre o pedido no celular. O sistema mostra o endereço e o lote a separar.
- Ele vai ao endereço e lê o DataMatrix da caixa que pegou.
- O sistema compara: é o produto certo? É o lote indicado?
- Se sim, confirma e segue. Se não, avisa para trocar a caixa.
- Na conferência de saída, outra pessoa lê os itens de novo antes de fechar o volume.
A RDC 430 pede, no art. 59, que os registros de expedição tenham quantidade, lote e validade. Com a leitura, esses dados vão para a nota e para o registro sem digitação. Para mais detalhes sobre esse fluxo, leia separação e conferência de pedidos.
Número de série: quando é preciso
O campo (21) traz um número único para cada unidade. Em medicamentos e em materiais, ele aparece quando o fabricante decide serializar ou quando uma regra exige.
- Medicamentos no Brasil. A Lei 11.903/2009 criou o Sistema Nacional de Controle de Medicamentos (SNCM), com previsão de número de série por embalagem. A Lei 14.338/2022 revogou essa exigência de número de série único. O que segue obrigatório é o controle por lote: lote, data de fabricação e validade nas embalagens, e o detentor do registro deve manter o mapa de distribuição por lote. Por isso, muitos medicamentos no Brasil não trazem número de série.
- Medicamentos importados. Na Europa, o Regulamento Delegado (UE) 2016/161 exige um identificador único em código 2D em muitos medicamentos. Produtos fabricados para esse mercado podem chegar com DataMatrix serializado.
- Dispositivos médicos. A ANVISA criou o sistema de Identificação Única de Dispositivos Médicos (UDI) pela RDC 591/2021, com prazos escalonados por classe de risco. A UDI pode usar o padrão GS1. Para OPME e implantes, o número de série ajuda a saber qual unidade foi para qual paciente.
Em resumo: o seu sistema deve aceitar o campo de série quando ele vier, mas sem depender dele para funcionar.
E quando a embalagem não tem DataMatrix?
Ainda é comum. Muitos produtos chegam só com o código de linhas. Nesse caso:
- O conferente lê o código de linhas para identificar o produto.
- Digita lote e validade, ou lê de uma etiqueta do fornecedor, se houver.
- O sistema pode exigir confirmação da validade digitada (digitar duas vezes ou mostrar a data por extenso).
- Mantenha uma lista de fornecedores e produtos sem DataMatrix, para conversar com eles.
Uma alternativa é a própria distribuidora imprimir uma etiqueta interna com lote e validade no recebimento. Isso ajuda na separação, mas exige cuidado: o erro de digitação passa para a etiqueta.
Como começar sem parar a operação
Não é preciso mudar tudo de uma vez. Uma sequência possível:
- Levante os fornecedores. Veja quais já mandam DataMatrix nas embalagens.
- Teste os aparelhos. Celulares e coletores com leitura 2D, usando caixas reais.
- Comece pelo recebimento. É onde a leitura evita mais digitação.
- Leve para a separação. Com lote e validade certos, a conferência por lote fica possível.
- Mantenha o caminho manual. Para produtos sem o código, com confirmação da validade.
- Acompanhe as divergências. Quantos lotes divergem da nota, por fornecedor.
Checklist de conferência com DataMatrix
- O aplicativo lê DataMatrix e separa os campos GS1.
- A validade AAMMDD é convertida corretamente.
- O recebimento compara lote e quantidade com a nota.
- Divergências vão para quarentena.
- A separação confere o lote lido contra o lote indicado.
- A conferência de saída é feita por outra pessoa.
- Há caminho para produtos sem DataMatrix.
- O aparelho foi testado com rede instável.
Erros comuns
- Comprar leitor que só lê código de linhas. Ele não lê o DataMatrix.
- Ler o código e mesmo assim digitar a validade. Perde-se o ganho e volta o erro.
- Ignorar a validade em formato AAMMDD. Um sistema mal configurado pode ler 271231 como data errada.
- Ler o código errado. Algumas embalagens têm vários códigos. O certo é o DataMatrix GS1 com os campos do produto.
- Não testar com as caixas reais. Embalagem brilhante, curva ou pequena pode dificultar a leitura.
Perguntas frequentes
Preciso de coletor industrial?
Não para começar. Um celular com boa câmera e um aplicativo que leia DataMatrix resolve muitos casos. Para uso intenso, o dia todo, o coletor com leitor 2D costuma ser mais rápido e mais resistente.
O DataMatrix substitui o código de linhas?
Na prática, os dois convivem. Muitas embalagens trazem os dois. O sistema deve aceitar ambos e dar preferência ao DataMatrix quando ele existir.
A ANVISA obriga DataMatrix em medicamentos?
Hoje, a lei exige controle por lote, com lote e validade na embalagem, mas não exige número de série único desde a Lei 14.338/2022. Para dispositivos médicos, a RDC 591/2021 criou a UDI. Confira sempre a regra em vigor para o seu tipo de produto.
O DataMatrix funciona com etiqueta amassada?
O DataMatrix tem correção de erro embutida, então costuma ser lido mesmo com parte do código danificada. Mesmo assim, etiqueta muito danificada pode falhar. Tenha sempre o caminho manual.
Quais dados devo guardar depois da leitura?
No mínimo produto, lote, validade e quantidade, ligados à nota de entrada ou de saída, com quem leu e quando. Se vier número de série, guarde também.
Como o KWeb ajuda
No KWeb, o estoque é controlado por lote e localização, com separação, conferência e expedição. Os aplicativos para Android e iPhone (Separar, Entrada, Inventário, Localizações e MIDAS) leem o código de barras pela câmera do celular.