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Tecnovigilância para distribuidora de OPME: como notificar evento adverso e queixa técnica

Tecnovigilância não é "problema do fabricante". A distribuidora é elo da cadeia e tem obrigação de canalizar notificação recebida de hospital. Como capturar, classificar e enviar via Notivisa — com prazos.

Admin Kralen
Equipe Kralen
Última atualização · 26 de maio de 2026
Neste artigo

Tecnovigilância é o sistema brasileiro de vigilância pós-comercialização de produtos para saúde — dispositivos médicos, equipamentos, materiais e produtos para diagnóstico in vitro. O marco regulatório central é a RDC 67/2009 (Boas Práticas de Vigilância Sanitária para Produtos para Saúde), complementada pela Instrução Normativa 67/2019 (procedimentos operacionais para notificação) e por instrumentos setoriais como a RDC 23/2012 (recolhimento de produtos para saúde).

Para a distribuidora de OPME e materiais médico-hospitalares, a Tecnovigilância não é "problema do fabricante": é obrigação compartilhada da cadeia, e o fiscal da Vigilância Sanitária estadual checa em inspeção. Este artigo cobre como capturar, classificar, notificar e tratar — com prazos e fluxos operacionais.

O sistema em três camadas

A Tecnovigilância opera em três níveis interligados:

  • Nível federal (ANVISA): gerencia o Notivisa, recebe notificações, conduz análises, determina recolhimentos e cancela registros quando aplicável.
  • Nível estadual (VISA estadual): inspeciona estabelecimentos, audita o sistema interno de Tecnovigilância da empresa, aplica sanções por falha no sistema (não pelo evento em si).
  • Nível operacional (cadeia): fabricante/importador (detentor do registro), distribuidor, hospital/serviço de saúde, profissional, usuário. Cada um tem dever de notificar evento que tomar conhecimento.

Evento adverso vs. queixa técnica: definições precisas

Dois conceitos com tratamento, prazo e gravidade distintos:

Evento adverso (EA) é qualquer ocorrência clínica indesejada que cause ou possa causar dano ao usuário, mesmo que a relação causal com o produto não esteja totalmente confirmada. A RDC 67/2009 classifica por gravidade:

  • Evento adverso grave: óbito, ameaça à vida, hospitalização ou prolongamento de hospitalização, incapacidade persistente/significativa, anomalia congênita, intervenção cirúrgica não-prevista para evitar dano permanente. Prazo de notificação: 72 horas após tomada de conhecimento.
  • Evento adverso não-grave: dano transitório, sem necessidade de intervenção significativa. Prazo: 15 dias corridos.

Queixa técnica (QT) é qualquer não-conformidade do produto observada sem dano clínico documentado — defeito de fabricação, divergência de especificação, falha de embalagem, etiqueta ilegível. Prazo de notificação: 30 dias corridos.

A IN 67/2019 acrescentou uma quarta categoria útil para a distribuidora: a "investigação em andamento". Quando o evento foi reportado mas a causa raiz ainda não está clara, a distribuidora deve registrar internamente e aguardar análise antes de classificar como EA ou QT — sem que isso suspenda o prazo se a gravidade for evidente.

Quem notifica, em qual ordem

O artigo 3º da RDC 67/2009 estabelece que a obrigação primária de notificação cabe ao detentor do registro (fabricante ou importador). Mas o artigo 7º expande essa obrigação para toda a cadeia: "estabelecimentos de saúde, distribuidores, transportadores, profissionais de saúde, usuários" — sob o princípio de que quem toma conhecimento, notifica.

Na prática operacional da distribuidora:

  1. Hospital ou farmácia reclama → distribuidora recebe via SAC, comercial, financeiro, ou logística (devolução com motivo "defeito").
  2. Distribuidora classifica internamente em 24 horas: EA grave, EA não-grave, QT, ou "investigação".
  3. Notifica o detentor do registro imediatamente (mesmo dia, se possível). E-mail formal, com cópia para o jurídico interno da distribuidora.
  4. Aguarda resposta do detentor por prazo razoável: 48h para EA grave, 5-7 dias para EA não-grave/QT.
  5. Notifica diretamente o Notivisa se o detentor não responder ou se a gravidade exige ação imediata. Não há retaliação prevista por notificação direta — pelo contrário, a RDC protege o canalizador.
  6. Acompanha tratativa (recolhimento, substituição, encerramento) e arquiva documentação completa.

O que o fiscal pede na inspeção

Em auditoria da VISA estadual, três blocos de perguntas aparecem sempre:

  1. Sistema interno: "Mostre o procedimento operacional padrão (POP) de Tecnovigilância. Quem é o responsável técnico? Qual o canal de captura? Qual o prazo interno de classificação?"
  2. Histórico de eventos: "Quantas QTs e EAs vocês registraram nos últimos 12 meses? Por SKU, por lote, por hospital. Quantos foram notificados à ANVISA? Em quanto tempo? Qual foi a tratativa?"
  3. Cruzamento com volume: "Vocês movimentaram X unidades de Y SKU no período. Quantos eventos vocês registraram para esse SKU? Está dentro do esperado para a categoria?"

A terceira pergunta é a mais perigosa. O fiscal tem acesso a estatísticas de eventos por categoria de dispositivo médico — ele sabe que stents cardiológicos têm taxa típica de QT de 0,5-1% e taxa de EA de 0,05-0,2%. Distribuidora que movimenta 10.000 stents/ano e reporta zero eventos será autuada por "falha no sistema de captura" — não pelo evento em si.

Não receber queixa é pior que receber e tratar bem. O fiscal sabe que volume operacional sem QT é sintoma de captura quebrada — e captura quebrada é o que ele audita, não o produto em si.

Tipos de evento mais comuns por classe de produto

CategoriaEventos típicosPrazo predominante
Implante ortopédico (placa, parafuso, prótese)QT: medida fora de spec, falha de esterilização visível, embalagem rasgada. EA: quebra intra-operatória, deslocamento pós-implante.QT: 30d. EA grave: 72h.
Implante cardiológico (stent, marca-passo)QT: falha de embalagem. EA: oclusão, migração, falha eletrônica.EA grave: 72h.
Cateter, sonda, dispositivo invasivoQT: vazamento, malformação. EA: rompimento, infecção atribuível.EA não-grave: 15d.
Material de consumo (luva, máscara, gaze)QT: defeito de embalagem, contaminação visível.QT: 30d.
Equipamento médico (monitor, bomba)EA: falha durante uso. QT: defeito de fabricação.EA grave: 72h.

Recolhimento (recall): quando entra em cena

Quando a análise da ANVISA conclui que um lote/série representa risco sistêmico, é determinado o recolhimento (RDC 23/2012). Recolhimento tem quatro classes:

  • Classe I: risco grave de dano à saúde. Recolhimento imediato, comunicação a todos os destinatários em até 24h, retirada física em até 30 dias.
  • Classe II: risco temporário ou reversível. Recolhimento em até 60 dias.
  • Classe III: improbabilidade de dano, mas em desconformidade. Recolhimento em até 90 dias.
  • Recolhimento voluntário: iniciado pelo detentor antes de determinação da ANVISA, com comunicação simultânea.

A distribuidora é elo executivo do recolhimento: precisa localizar todos os destinatários (NF-e por NF-e), comunicar formalmente, recolher fisicamente o produto, e prestar contas à ANVISA. Operação manual leva 5-10 dias úteis para Classe I de SKU médio; sistema integrado faz em horas.

Fluxo recomendado no ERP

O sistema transforma Tecnovigilância em workflow rastreável, não em pasta de e-mails:

  1. Captura: SAC, comercial, logística ou financeiro registra a ocorrência no sistema vinculando ao SKU + lote/UDI + hospital/cliente + NF-e original.
  2. Classificação assistida: o sistema sugere classe (EA grave/não-grave/QT) com base na descrição e no histórico, mas o RT confirma.
  3. Timer automático: prazo de notificação dispara conforme classe (72h/15d/30d).
  4. Notificação fabricante: e-mail formal automático com dados do caso, cópia para jurídico interno.
  5. Notificação Notivisa: PDF pré-preenchido nos campos da IN 67/2019, pronto para upload.
  6. Tratativa: retorno do fabricante registrado (recolhimento, substituição, encerramento), com data e resposta integral.
  7. Recolhimento eventual: se virou recall, o sistema lista NF-e por NF-e os destinatários do lote, gera ofício de comunicação, e controla a entrega da resposta de cada cliente.
  8. Auditoria histórica: relatório por período, por SKU, por gravidade, com taxa por mil unidades vendidas — para o RT defender em inspeção.

Faq

Distribuidora pode notificar diretamente a ANVISA sem passar pelo fabricante?

Pode e deve, se o caso for grave e o detentor do registro não responder em prazo razoável (48h para EA grave). A RDC 67/2009, art. 7º, protege o canalizador da informação.

Devolução para o fabricante substitui a notificação à ANVISA?

Não. Devolução é fluxo comercial; notificação é fluxo regulatório. Tudo que justifica devolução por defeito do produto também precisa entrar no Notivisa.

Hospital que reclamou é parte interessada na notificação?

Pode notificar pelo seu próprio canal, mas a distribuidora não pode usar isso como justificativa para não notificar. O Notivisa aceita múltiplas notificações para o mesmo evento — são consolidadas pela equipe da ANVISA.

Existe registro de "queixa não-procedente"?

Sim. Após investigação, a tratativa pode concluir que a queixa não se confirma (uso inadequado, expectativa fora de spec, dano atribuível a outro fator). O caso é encerrado internamente e arquivado, mas o registro de captura permanece — porque o fiscal audita o sistema, não o resultado.

O RT da distribuidora pode ser farmacêutico, ou precisa ser engenheiro biomédico?

A RDC 67/2009 não exige formação específica para o RT de Tecnovigilância, mas a empresa precisa ter responsável formalmente nomeado. Em distribuidora multiproduto (medicamento + OPME), o farmacêutico responsável pelo SNGPC geralmente acumula a função, com apoio técnico da equipe comercial e do jurídico.

O que muda com a IN 67/2019?

A IN 67/2019 detalhou procedimentos operacionais que estavam genéricos na RDC 67/2009: padrão do POP, conteúdo mínimo da notificação, prazos diferenciados conforme classe de dispositivo médico, e integração com o sistema de recolhimento da RDC 23/2012.

Como tratar EA suspeito mas não confirmado?

Notificar mesmo assim, com classificação "evento adverso não-grave em investigação". A ANVISA tem campo específico no Notivisa para casos de causa raiz não-confirmada. Esperar a confirmação fora do prazo regulamentar gera autuação por descumprimento de prazo.

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