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Guia 33/2020 da ANVISA na prática: URS, FS, DQ, IQ, OQ e PQ explicados

Validação de sistemas pelo Guia 33/2020 da ANVISA em linguagem simples: o que são URS, FS, DQ, IQ, OQ e PQ e como a distribuidora organiza cada um.

Por Equipe Kralen · Publicado em · Atualizado em

"Sistema validado conforme o Guia 33 da ANVISA." A frase aparece em propostas de software, em conversas com consultores e em inspeções sanitárias. Mas pouca gente consegue explicar o que ela quer dizer. E as siglas não ajudam: URS, FS, DQ, IQ, OQ, PQ.

Para a distribuidora de medicamentos, o assunto não é só teoria. A RDC 430/2020, que trata das Boas Práticas de Distribuição e Armazenagem, diz que sistemas informatizados precisam ser qualificados e validados antes do uso. O Guia 33 é o documento da ANVISA que explica um jeito organizado de fazer isso.

Neste artigo você vai entender o que é o Guia 33, se ele é obrigatório, o que significa cada sigla com exemplos do dia a dia da distribuidora, a ordem dos trabalhos, os erros mais comuns e um checklist para conferir se a sua documentação está em ordem.

O que é o Guia 33/2020

O Guia 33/2020 é o "Guia para Validação de Sistemas Computadorizados" da ANVISA. A versão em uso é a versão 1, que passou a valer em 14 de abril de 2020. Ele substituiu um guia com o mesmo nome publicado em 2010.

Na época, a ANVISA abriu um período de sugestões do público até 12 de agosto de 2020, para uma possível revisão. Até a data desta atualização, não encontramos versão mais nova publicada. Antes de usar o guia num projeto, vale conferir no portal da ANVISA se saiu alguma revisão.

O guia se baseia no GAMP 5, um método internacional muito usado pela indústria farmacêutica para validar sistemas. A sigla vem do inglês e quer dizer, em resumo, boas práticas para sistemas automatizados.

O Guia 33 é obrigatório?

Não. O próprio texto diz que ele é um guia de recomendação, sem força de norma. A empresa pode usar outro método, desde que ele seja adequado e cumpra as exigências legais. Não seguir o guia, por si só, não é infração sanitária.

O foco original do guia são as Boas Práticas de Fabricação de medicamentos e de insumos farmacêuticos. Ou seja, ele foi escrito pensando na indústria.

Então por que ele importa para a distribuidora? Porque a obrigação de validar vem da RDC 430/2020. Ela exige que sistemas informatizados sejam qualificados e validados antes do uso e depois de mudanças importantes. O Guia 33 é a referência mais conhecida no Brasil sobre como fazer isso. Muitas distribuidoras usam o guia como modelo, ajustando o tamanho do trabalho ao risco de cada sistema.

A ANVISA não certifica sistemas

Esse é o ponto que mais confunde. Não existe "sistema certificado pela ANVISA". O que existe é:

  • Uma empresa regulada pela ANVISA (a distribuidora).
  • Um sistema validado dentro da operação dessa empresa.

Quem responde pela validação é a empresa que usa o sistema. O fornecedor do software ajuda, entrega documentos e participa dos testes. Mas a responsabilidade final é da distribuidora. Por isso a documentação fica com ela, pronta para a inspeção.

Validação baseada em risco

O guia pede que o esforço de validação seja proporcional ao risco. Um sistema que controla lote, validade e rastreio de medicamentos tem impacto grande na qualidade e na segurança do paciente. Um sistema usado só para agenda de reuniões, não.

Na prática, a distribuidora:

  1. Faz uma lista dos sistemas que usa.
  2. Avalia quais deles afetam as Boas Práticas (lote, validade, temperatura, rastreio, recolhimento, registros).
  3. Dentro de cada sistema, aponta as funções de maior risco.
  4. Concentra os testes e a documentação nessas funções.

O guia também usa as categorias do GAMP 5. Em resumo:

Categoria O que é Exemplo
1 Programas de base Sistema operacional, banco de dados
3 Produto pronto, usado sem configurar Programa de leitura de um equipamento
4 Produto pronto e configurado para a empresa Sistema de gestão (ERP) com parâmetros da distribuidora
5 Programa feito sob medida Rotina desenvolvida só para a empresa

Quanto maior a categoria, maior o trabalho de validação. Um ERP para distribuidora costuma ficar na categoria 4. Partes desenvolvidas sob medida entram na categoria 5.

O ciclo de vida do sistema

O guia organiza a validação em quatro fases:

  1. Conceito: a empresa percebe a necessidade e define o que quer.
  2. Projeto: planejamento, escolha do fornecedor, especificações, configuração, testes e liberação para uso.
  3. Operação: uso no dia a dia, com controle de mudanças, revisão periódica, cópias de segurança e controle de acesso.
  4. Aposentadoria: desligamento do sistema, com migração ou guarda dos dados.

As siglas abaixo aparecem principalmente na fase de projeto.

URS: o que a distribuidora precisa

A URS (do inglês User Requirements Specification) é a especificação dos requisitos do usuário. Em português, o guia também usa a sigla ERU. Ela descreve o que a empresa precisa que o sistema faça, sem falar ainda de tecnologia.

Exemplos de requisitos numa distribuidora:

  • Registrar lote, validade e quantidade em toda entrada e saída.
  • Impedir a venda e a separação de lote bloqueado ou vencido.
  • Levar o lote e a validade para a nota fiscal.
  • Listar, a partir de um lote, todos os clientes que o receberam.
  • Registrar quem alterou cada dado, quando e por quê, sem apagar o dado original.
  • Permitir acesso só a usuários autorizados, com perfis por função.
  • Fazer cópia de segurança dos dados.

Uma dica do próprio guia: escreva requisitos claros e testáveis. "O sistema deve atender à legislação" não é um requisito, porque não dá para testar.

A URS é aprovada pelos responsáveis da distribuidora, como o responsável técnico e o gestor da área.

FS: como o sistema atende

A FS (Functional Specification) é a especificação funcional. Ela explica como o sistema atende a cada requisito da URS. Em sistemas prontos, costuma ser escrita pelo fornecedor e aprovada pela distribuidora.

Exemplo:

  • URS: "impedir a separação de lote bloqueado."
  • FS: "o lote tem um campo de situação. Quando a situação é 'bloqueado', ele não aparece na lista de separação e não pode ser incluído na nota."

Em sistemas configurados, existe também a especificação de configuração, que registra os parâmetros escolhidos pela empresa.

DQ: o projeto atende ao que foi pedido?

A DQ (Design Qualification) é a qualificação do projeto. É uma revisão que confirma que o desenho do sistema e as escolhas do fornecedor atendem à URS.

Na DQ, a distribuidora costuma olhar:

  • Se cada requisito da URS tem uma resposta na FS.
  • Como funcionam o controle de acesso e o registro de alterações.
  • O plano de cópia de segurança e de recuperação dos dados.
  • A avaliação do fornecedor (questionário, visita ou auditoria, conforme o risco).

IQ: foi instalado do jeito certo?

A IQ (Installation Qualification) é a qualificação da instalação. Ela comprova que o sistema foi instalado e configurado como planejado.

Registros comuns:

  • Versão do sistema em uso.
  • Onde o sistema roda (servidor próprio ou na internet).
  • Configurações principais e perfis de acesso criados.
  • Equipamentos usados no armazém, como celulares e leitores de código de barras.

Quando o sistema funciona pela internet, parte da infraestrutura fica com o fornecedor. Nesse caso, a distribuidora reúne as evidências que o fornecedor entrega e documenta a parte que é dela.

OQ: cada função funciona?

A OQ (Operational Qualification) é a qualificação de operação. São os testes que provam que cada função importante faz o que a FS promete.

Exemplos de testes numa distribuidora:

  1. Dar entrada numa nota de fornecedor e conferir se lote e validade foram gravados.
  2. Bloquear um lote e tentar separá-lo. O sistema deve impedir.
  3. Emitir uma nota e conferir se o lote e a validade saíram certos.
  4. Alterar um dado e conferir se o registro mostra quem alterou, quando e o valor antigo.
  5. Entrar com um usuário sem permissão e tentar uma função restrita.
  6. Restaurar uma cópia de segurança num ambiente de teste.

Cada teste tem: situação de partida, passos, resultado esperado, resultado obtido, data e assinatura de quem executou. Teste sem resultado registrado é teste não feito.

PQ: funciona na operação real?

A PQ (Performance Qualification) é a qualificação de desempenho. Ela mostra que o sistema funciona bem no processo real da empresa, com o volume de pedidos, os usuários e a rotina de verdade.

Exemplos:

  • Acompanhar algumas semanas de operação e conferir se saldos, lotes e notas batem.
  • Simular um recolhimento e medir quanto tempo leva para listar os clientes de um lote.
  • Fazer um inventário e comparar o físico com o sistema.

Ordem dos trabalhos: passo a passo

  1. Fazer a lista de sistemas e a avaliação de risco.
  2. Escrever o plano de validação: o que será feito, por quem e com quais critérios.
  3. Escrever e aprovar a URS.
  4. Avaliar o fornecedor e receber a FS.
  5. Fazer a DQ.
  6. Instalar e registrar a IQ.
  7. Executar os testes da OQ.
  8. Acompanhar a operação real na PQ.
  9. Fechar com o relatório de validação, que diz se o sistema está liberado para uso.
  10. Manter o controle de mudanças e as revisões periódicas.

O tempo de cada etapa depende do tamanho da operação e do número de funções de risco.

Depois da validação: manter em dia

A validação não termina no relatório. Na fase de operação, a distribuidora precisa:

  • Controlar mudanças: atualização do sistema ou nova função precisa de avaliação de impacto e, se for o caso, novos testes.
  • Fazer revisões periódicas: conferir se o sistema continua validado, com frequência definida pelo risco.
  • Treinar usuários e registrar o treinamento.
  • Gerenciar acessos: desligar usuários que saíram da empresa.
  • Testar as cópias de segurança.

Erros comuns

  • URS copiada de modelo, que não reflete a operação da empresa.
  • Testes da OQ sem resultado preenchido ou sem assinatura.
  • Versão do sistema na IQ diferente da versão em uso.
  • Atualizações sem controle de mudança.
  • Validar tudo com o mesmo peso, em vez de focar nas funções de risco.
  • Achar que o fornecedor resolve tudo. A responsabilidade é da distribuidora.

Checklist para a inspeção

  • Lista de sistemas com avaliação de risco.
  • Plano de validação aprovado.
  • URS aprovada e assinada.
  • FS ou documentação equivalente do fornecedor.
  • Avaliação do fornecedor registrada.
  • IQ com a versão em uso.
  • OQ com todos os testes executados e assinados.
  • PQ ou acompanhamento da operação real.
  • Relatório de validação com a liberação.
  • Registros de controle de mudanças e revisões periódicas.
  • Procedimento de cópia de segurança e teste de restauração.

Perguntas frequentes

O Guia 33 tem versão mais nova?

A versão em uso é a versão 1, que vale desde 14 de abril de 2020. Não encontramos versão mais recente publicada até outubro de 2026. Confira no portal da ANVISA antes de iniciar um projeto.

A distribuidora é obrigada a seguir o Guia 33?

O guia não é obrigatório. Mas a RDC 430/2020 exige que os sistemas informatizados sejam qualificados e validados. O guia é a forma mais conhecida de mostrar isso de modo organizado.

Existe software "aprovado pela ANVISA"?

Não. A ANVISA não certifica sistemas de gestão. Quem valida o sistema é a empresa que o usa, dentro da própria operação.

A validação vence?

Não há prazo fixo. A validação precisa ser mantida com controle de mudanças e revisões periódicas. Mudanças grandes no sistema pedem nova avaliação e, se preciso, novos testes.

O fornecedor entrega os documentos prontos?

Em parte. O fornecedor pode entregar a FS, evidências de testes e informações para a IQ. A URS, a avaliação de risco, a PQ e o relatório final são da distribuidora. Combine antes de contratar o que o fornecedor vai entregar.

Planilha também precisa ser validada?

O Guia 33 inclui planilhas no seu escopo quando elas são usadas em atividades reguladas. Se uma planilha controla validade ou temperatura, ela entra na avaliação de risco.

Onde o KWeb entra

Vários requisitos de uma URS dependem de controle de acesso, de registro de alterações e de controle por lote. No KWeb, há verificação em duas etapas no acesso, permissões por usuário e histórico de alterações, e os produtos são controlados por lote e validade. A validação dentro da operação continua sendo da distribuidora.

Fontes

Quer ver isso funcionando no KWeb?

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